“Tenho, porém contra ti que abandonaste o teu primeiro amor”. Apocalipse 2:1 a 7. 

Contexto histórico:

            A carta a igreja de Éfeso é a primeira das sete que João escreve no apocalipse. Sua principal reflexão é a cerca do perigo de indiferença emocional causada pelas constantes lutas e adversidades da vida. A igreja estava localizada num contexto social próprio, portanto faz-se necessário conhecermos melhor suas peculiaridades para entender os elogios e advertências feitas pelo Senhor Jesus a esta comunidade que servem também para nosso crescimento espiritual.

            Éfeso era uma cidade importante no império romano do 1° século, localizada na Ásia Menor, atual Turquia. Contava com um comercio religioso efervescente representado pelo culto a deusa Diana. Muitos ourives e fabricantes dos nichos da deusa sobreviviam desta fonte de renda, o que tornava a idolatria um negócio rentável e muitos fanáticos comprometidos com a permanência deste tipo de adoração pagã.

            A igreja fora fundada pelo apóstolo Paulo em suas viagens missionárias aos gentios. Desde os primórdios se mostrava fervorosa e ávida no trabalho da evangelização. Seu crescimento foi notório e sua firmeza e zelo pelo Evangelho se estenderam por toda a vizinhança da época. Além de Paulo, a comunidade teve grandes nomes no pastoreio como Timóteo e João.

 

Suas virtudes:

            O Senhor Jesus elogia as muitas qualidade da igreja, dentre elas:

*Dedicação ao Evangelho. Eram incansáveis divulgadores da mensagem de Cristo, sem medirem esforços expandiam o Reino em seu meio e nos lugares mais distantes.

*Zelo pela verdade. Fortes combatentes da heresia nunca se calaram diante das doutrinas dos nicolaitas. Seita fundada por suposto irmão chamado Nicolau, o qual ensinava que o sexo era livre dentro da comunidade entre irmãos, ou seja, os parceiros eram compartilhados sem restrições. Ele mesmo dividia sua esposa com outros, o que criava um ambiente de orgias e infidelidades sexuais. Tão forte era a repulsa da igreja  com o erro  que o Senhor Jesus assim a descreve: “Sei que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio”.

*Trabalho exaustivo. O testemunho de que a igreja desfruta é este: “conheço o teu labor e a tua perseverança”. Marcas indeléveis de um povo comprometido e dinâmico que chegava a exaustão no labor cristão. Eles tinham de lutar contra inimigos de dentro e de fora. Os nicolaitas dentro e os pagãos e perseguidores fora. Na luta pela sobrevivência enfrentavam verdadeiros embates com os opositores da fé. Motivo porque se mantinham firmes, a própria luta deixava a igreja ativa em prontidão a todo tempo.

*Discernimento espiritual. Como resultado deste trabalho extenuante, esta vigilância constante e este monitoramento incansável, eles se aprimoraram no discernimento do erro, eram peritos em descobrir e desmascarar o falso, não podiam ser facilmente enganados, pois estavam atentos e discerniam o que era verdade de Deus ou mentira humana. “Pois rejeitastes os que a si mesmo se declaram judeus e o não são, e aos que a si mesmo se nomeiam apóstolos e o não são, antes os achastes mentirosos”.

Embora contassem com todo este arsenal de virtudes e por elas tenham sido elogiados e reconhecidos, eles pecaram em algo aparentemente simples. Tinham todas as capacidades de sobrevivência e autogerenciamento, no entanto, falharam no ponto que exigia pouco deles, mas que se tornou essencial á sua existência enquanto igreja neste mundo e todo ser enquanto sensitivo e humano.

O abandono do primeiro amor.

            Nas palavras do Senhor Jesus, eles: “abandonaram o primeiro amor”.  No constante exercício da vigilância, trabalho e lutas, findaram por incorrer na mecanização da vida, ou seja, viver em prol do fazer e fazer de maneira técnica e engessada sem emoção, sem sentir a pulsão, o calor da ação em si. De tanto se exercitarem na função e desempenho perderam o primeiro amor ou amor do começo, de quando começaram sua carreira cristã com toda aquela paixão e entusiasmo pra Deus e por Deus, passando a viver da rotina não se perceberam frios e apáticos aos sentimentos que a vida traz em si e que todo ser humano não pode esquecer sob o risco de se tornar uma máquina, um número ou apenas um operário. Eles coaram o mosquito e engoliram o camelo. Deram extrema atenção a coisas importantes e esqueceram as essenciais.

            O perigo de se perder o primeiro amor é tão grave que coloca em risco de se tornar sem sentido tudo o mais que foi feito. Perder o primeiro amor equivale a perder o amor do principio quando as coisas eram feitas de todo coração e não somente pela obrigação de se fazer ou pelo costume do que se faz e como se faz. A perda parecia insubstituível mesmo por todas aquelas virtudes. Perder o primeiro amor ou o amor como princípio de tudo é igual a perder a verdadeira razão da vida.

            Portanto, para Jesus não importa somente o que fazemos ainda que seja o bem, mas também, como o fazemos que intenções permeiam nosso coração, que sentimentos estão envolvidos e com que intensidade amamos o que estamos fazendo. Ele não aceita nada de nossa parte que não seja de todo o coração, não admite dividir nosso amor com mais ninguém, muito menos que se viva ou faça algo para Ele que não seja de verdadeiro amor.

Aplicações:

*Todas as nossas ações devem ser feitas com amor. Quando nos depararmos com as proezas que o amor é capaz de fazer, logo concluiremos que não existe outra forma melhor de realizar nossas ações e alcançar resultados como através do amor. Por isso, tenha prazer no que faz e se não for possível procure outra coisa pra fazer, contanto que você faça de coração. Somente devemos mudar de atividade ou desistir da mesma se não nos trás qualquer contentamento na vida.

Comece fazendo por dever e como exercício, depois você fará espontaneamente. O amor é o tempero que deixa tudo na vida mais saboroso. Ainda que sua função ou papel não sejam exatamente aqueles que você gostaria, contudo, não te afligem ou diminuem sua dignidade, faça-o mesmo assim, porém, com aquela alegria de alma que o ato em si seja uma boa recompensa, certamente lhe fará sentir-se melhor e logo perceberá que é uma benção na sua vida. Evite reclamações infundadas, descontentamentos injustificáveis. E até mesmo inveja do seu próximo, porque a inveja é aquele desejo do alheio que você nunca poderá ter.

Experimente agradecer pelas coisas e situações da vida. A gratidão é a memória do coração. Pessoas que sabem agradecer vivem de coração mais alegre. Encontre os pontos fortes de sua ocupação e ocasião e sinta orgulho deles. É o primeiro passo para amar o que somos e fazemos.

*Cuidado com a mecanização da vida. Num mundo agitado em que vivemos, impessoalidade se tornou comum, as pessoas não se relacionam como antes, ninguém dar mais atenção ao problema ou sofrimento do próximo. No corre e corre das agendas cheias, longas jornadas de trabalho e alta exigência no mercado profissional, não sobra tempo para sentir o ambiente, pensar acerca do que estamos fazendo e de como estamos fazendo, havendo desta maneira uma total mecanização da vida, ou seja, a rotina se ocupa em tornar frio o coração e engessar os sentimentos, convencendo-nos de que nosso dever é somente repetir o processo, a dinâmica ou sistema sem maiores preocupações do ponto de vista subjetivo ou espiritual da vida.

            Aí segue dicas importantes contra este sistema: não se conforme com o fato apenas porque vem sendo feito desde muito tempo. Nunca se torne perito em lutar contra o erro perdendo de vista a esperança. Tenha cuidado contra o ressentimento. Peça a Deus coragem naquilo que você pode mudar, paciência no que não pode e sabedoria em todas as coisas. Acima de tudo arrisque-se confiando sua vida nas mãos de Deus e por fim, abra-se para o novo, a perspectiva de que você pode fazer diferente.

 

*Os maiores inimigos são os da própria alma. A igreja de Éfeso era combatente contra o mal existente do lado de fora, hábil em denunciar o erro e firme contra os inimigos externos. O que ela não percebeu foi que seu maior inimigo estava no seu interior. Que sua maior ameaça se encontrava do lado de dentro, enquanto se mostrava viva do lado de fora estava morrendo por dentro, tinha perdido o seu primeiro amor.

            É verdade que todos nós precisamos de alguém para por as culpas às vezes, alguém que sirva de bode expiatório, em quem podemos projetar nossos fracassos, erros e frustrações, porém, sempre chega ou pelo menos deve chegar o momento de assumir nossa responsabilidade. Perder o contato com o eu interior é o pior perigo que podemos correr, quando acontece perdemos a capacidade de auto-reconhecimento, de humilhação, e, com isto, a oportunidade de arrependimento e reconstrução.

            A igreja não se percebia, não era capaz de ver seu desvio, sua queda. Foi necessário que o Senhor a alertasse: “Arrepende-te, vê onde caíste e volta”. Essas palavras são endereçadas a ela, como se falasse consigo mesma, buscasse a causa da queda dentro dela e não fora. Alerta! Se você está muito crítico com tudo e todos, se a intolerância com os erros alheios altera seu humor freqüentemente, se você sente prazer em denunciar irregularidades e defeitos sem pensar nunca numa solução e não se permite auto reflexão ou exame de consciência, cuidado! Você pode ser um forte candidato abandonar o amor como princípio da vida. 

             O remédio para a cura é arrependimento. Primeiro um reconhecimento de que as coisas não vão bem, assumir que precisa de ajuda. Segundo, ponderar acerca de quando e como chegou a este ponto na caminhada, de que elementos contribuíram para solapar as emoções de suas atividades e relações. Terceiro, assumir nova postura diante da vida através de boas leituras, mais tempo com a família, assíduas atividades espirituais com a igreja e o desenvolvimento de um trabalho voluntário de vez em quando, sem esquecer é claro de tempo para passear e conviver com pessoas e espaços agradáveis. Porém, o principal é uma vida devocional mais fervorosa, conhecer a Bíblia e o Deus da Bíblia. Amém

 

+Revmo. Dom Raniere Campos

“Ad Magnum Dei Gloriae”



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